Nos últimos tempos temos vindo a assistir a uma mudança de paradigma no que respeita à mobilidade, saltando à vista o número (crescente) da venda de carros elétricos. Segundo informação disponibilizada ao Jornal i, foram vendidos quase seis mil carros elétricos desde janeiro, um aumento substancial em relação aos anos de 2017 e 2016, em que foram registadas cerca de 1640 e 756 vendas, respetivamente. Preocupações ambientais, poupança no combustível, são várias as razões que levam os portugueses a optar cada vez mais pela aquisição de um veículo elétrico, ao invés do tradicional combustível, o diesel ou a gasolina.

No entanto, talvez os portugueses não contassem que este número crescente pudesse vir a tornar-se um obstáculo na hora de carregar o seu carro. Ao que parece, ter um carro elétrico é simples, mas na hora de o carregar as dificuldades começam a surgir nos postos de carregamento. Em Lisboa, por exemplo, ou encontram-se ocupados por outros veículos elétricos em carga, ou estão ocupados por tuk-tuk, ou simplesmente, avariados. Na zona de Belém, junto à loja dos pastéis e junto ao Museu da Marinha, os ecrãs para iniciar o carregamento não funcionam. De acordo a informação disponibilizada pelo Portal da Queixa, foram recebidas mais de 50 (cinquenta) queixas relacionadas com os postos de carregamento elétricos, segundo os quais grande parte dos mesmos se encontravam avariados, em manutenção ou até mesmo desligados, impedindo a sua utilização. Mas as falhas não são apenas nos postos. Ao que parece, os motivos das queixas reportam ainda falhas no serviço de apoio ao cliente, erros na aplicação e demora na entrega do cartão, que correspondem a 17%, 7% e 4%, respetivamente. Por seu turno, em 2016 e 2017, o número de queixas que deram entrada foi de 3 e 9, uma grande diferença face aos números atuais. Perante este cenário, a Associação Utilizadores de Veículos Elétricos (de ora em diante “UVE”) defende que “esta situação subsiste nos postos instalados no espaço público de acesso público, os postos instalados na via pública. A Mobi.E (entidade responsável até agora pela gestão da rede de postos de carregamento) anunciou o lançamento do concurso para a concessão destes postos, defendendo que “a concessão dos postos a operadores privados e, bem assim, a respetiva entrada na fase comercial permitirá a resolução destes problemas.” No seu site, pode ler-se ainda que a “MOBI.E irá deixar de proceder à emissão e/ou substituição de cartões de carregamento a partir do próximo dia 22 de novembro”.

Relembramos que, desde novembro de 2018 a utilização dos postos de carregamento rápido começou a ser paga e que desde abril de 2019 passaram também a ser suportados pelos utilizadores os carregamentos nos postos da rede Mobi.e localizados em espaços privados, como os parques de estacionamento de grandes superfícies, ficando ao critério do operador do posto cobrar ou não o valor da eletricidade carregada.

Perante este cenário, o Governo destaca que o processo de concessão da rede Mobi.E “deverá estar concluído já em dezembro de 2019 e iniciar durante o primeiro trimestre de 2020, se não existirem incidentes administrativos no percurso”. Matos Fernandes afirma que serão 600 postos de carregamento, divididos por 10 lotes (de 60 a 70 carregadores), cuja gestão será entregue via concurso a empresas privadas, pelo que o Governo deverá assumir apenas a função de regulador da rede. O anúncio do Ministro foi feito em entrevista à TSF, antes da sessão da abertura da segunda edição da conferência “Portugal Mobi Summit”, que este ano teve lugar no final de outubro na Nova SBE, em Carcavelos. Segundo o governante, é importante que a gestão, a operação e o desenvolvimento da rede seja feita por “quem sabe vender eletricidade para automóveis” e que o investimento é necessário para atingir a meta definida: reduzir as emissões em 40% e tornar-se um país neutro em carbono até 2050. A grande tarefa que temos pela frente é a de substituir os cinco milhões de motores a combustão por elétricos. Contudo, o Ministro assume que a grande dificuldade será ao nível do setor dos transportes, na qual a descarbonização é mais complicada. Assim, para atingir a meta proposta, estima-se que seja necessário um investimento de dois mil milhões de euros em cada ano, sendo que 90% do investimento cabe às famílias portuguesas.

Note-se que, recentemente são instalados cerca de 15 postos de carregamento por semana, prevendo-se que esta operação de instalação seja dada por concluída dentro de aproximadamente 3 (três) meses. Neste momento, a rede Mobi.E conta com 59 postos de carregamento rápido e 550 postos de carregamento normal, o que significa que existem cerca de 1250 tomadas. Paralelamente, foram emitidos mais de oito mil cartões de acesso à rede. Outro dos objetivos que se pretende concretizado pelo Ministério é disponibilização de uma rede de carregamento pública em todos os municípios do território nacional para fazer face à fraca cobertura no interior do país, sendo esta uma das críticas mais frequentes ao sistema. Por outro lado, a UVE garante que “está em fase de resolução com a instalação de um posto duplo em cada capital de concelho, de iniciativa pública, e com a expansão de postos de carregamento por parte da iniciativa privada”, e acrescenta que “é urgente que estes postos sejam instalados e ligados à rede pública de carregamento”.

Por sua vez, os quatro principais comercializadores de energia – EDP, Galp, Prio e eVaz Energy – já divulgaram o tarifário aplicável, bem como alguns dos descontos que os utilizadores poderão usufruir. A título de exemplo, a EDP comercializa uma Wallbox (carregador para instalar em casa) que dá direito a descontos para o consumo associado ao carregamento em casa. Já a Prio incentiva os seus utilizadores a usar a procurar a tarifa bi-diária com preços a 5,96 cêntimos por minuto, em vez dos 6,58 cêntimos por minuto fora do vazio (entre as 8h e as 22h). A estes valores é acrescentada a tarifa de acesso à rede, que foi fixada pelo regulador em 10,27 cêntimos por kWh nas horas fora de vazio e 4,83 cêntimos por kWh nas horas de vazio.

Segundo a simulação feita pela UVE, os carregamentos mais baratos são os da EDP que variam entre 3,20 e 8,74 euros. Segue-se a Galp, que disponibiliza carregamentos que vão desde os 3,44 e os 8,97 euros e depois a eVaz Energy com tarifas desde os 4,26 a 9,80 euros. Ao que se vê, a diferença de custo entre o carregamento rápido mais barato e o mais caro é de 6,68 euros.

Como é que podemos utilizar os postos de carregamento? Basta ter o cartão de acesso aos postos, cartão esse disponibilizado pelos operadores. Para tanto, o utilizador terá de estabelecer um contrato de fornecimento de energia com pelo menos um dos operadores e poderá usar o cartão em qualquer operador. Foi este o ponto de partida do Ministério do Ambiente que sempre defendeu que o utilizador não deveria ser obrigado a possuir mais do que um cartão e, por conseguinte, ser obrigado a contratar com mais que um operador. No fundo, o cartão só servirá para determinar quanto vai pagar e a quem vai pagar.

Existe ainda a possibilidade de carregamento na própria garagem do prédio, sendo que neste caso terá de pagar o valor da luz para uso doméstico. Se os lugares de estacionamento já estiverem equipados com tomadas elétricas e com ligação exclusiva à fração, poderão, em princípio, ser adaptadas para o carregamento das baterias elétricas dos carros. Contudo, tais equipamentos têm desde logo que cumprir os requisitos técnicos e legais definidos pela Direção Geral de Energia e Geologia (DGEG). Porém, se a instalação for num local que pertença a uma parte comum do edifício, terá de haver uma comunicação prévia por escrito à administração do condomínio, com a antecedência de, pelo menos, 30 dias, em relação à data pretendida para a instalação. Para aqueles que não tiverem garagem ou o acesso à ficha for curto, a dificuldade de carregar o carro em casa será bastante maior, já que um dos conselhos dos vendedores é precisamente evitar o recurso às extensões.

Apesar de tudo, o Ministro do Ambiente garante que a mobilidade elétrica continua a ser mais barata que os combustíveis. A razão, explica, reside no facto da crescente produção de energias renováveis em Portugal. Além disso, defende que o Orçamento de Estado deverá prever a criação de incentivos fiscais na compra de carros elétricos, bem como o investimento na substituição de veículos movidos a combustíveis fósseis, para Portugal conseguir cumprir com a missão de se tornar um país neutro em carbono até 2050.